A hemocromatose ou doença do armazenamento do ferro, apesar de pouco falada, é comum em aves cuja alimentação baseia-se em alimentos macios, como os Mainás, Sabiás, Trinca-Ferros e todos os Ranfastídeos.
Na natureza, tais aves bebem água rica em Tanino, substância natural que por ser quelante de ferro, dificulta sua absorção. Esta substância, também encontrada em chás, é oriunda da decomposição de folhas e vegetais e impregnam a água de riachos e poças formadas em troncos de árvores de florestas, bebedouros naturais dos alados.
Em cativeiro, além de darmos água livre desta substância, muitas vezes oferecemos rações desbalanceadas ou suplementamos ferro indevidamente, erro mais comum na época de muda pelos passarinheiros. E o que acontece? As aves apresentam hepatomegalia (fígado aumentado), cardiomegalia (coração aumentado), dispneia, perda de peso, distensão abdominal e fraqueza. A popular “oveira” nem sempre é gordura, pode ser um aumento do fígado em resposta à dieta.
A vitamina C, ou ácido ascórbico, participa da oxidação do Ferro biodisponibilizando-o, ou seja, aumentando a sua absorção. Em humanos com a doença, recomenda-se não ingerir frutas cítricas junto com os alimentos, para evitar tal feito. Como temos dificuldade de adaptarmos essa recomendação para as aves, devemos ser cada vez mais criteriosos ao fornecer frutas cítricas, evitando excessos e rotina.
Os exames laboratoriais de sangue demonstram atividade de enzimas hepáticas aumentadas e hipoproteinemia. Em geral, aves frugívoras, insetívoras e onívoras tendem a acumular mais ferro no fígado do que as carnívoras, piscívoras e granívoras. O fechamento do diagnóstico é feito com biopsia hepática, sendo o conjunto de outros exames como o raio-X e a dosagem de enzimas hepáticas apenas sugestivo.
Entre os tratamentos comprovados cientificamente, destaca-se a flebotomia, que nada mais é do que a retirada de 1% de sangue do peso vivo do animal a cada sete dias, por 16 semanas consecutivas, visando retirar mecanicamente o excesso de ferro do organismo, presente também nos glóbulos vermelhos do sangue. Ou a correção da dieta para uma pobre em ferro e o uso de uma substância chamada deferoxamina, também por 16 semanas.
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Hoje temos no mercado rações extrusadas adaptadas para cada espécie ou grupo, respeitando suas exigências nutricionais, o que facilita a criação e minimiza erros de manejo. Costumo dizer que uma ave bem alimentada não necessita de suplementação de vitaminas, minerais e aminoácidos; necessita sim de suplementação de atenção, carinho e, sobretudo, observação de seu comportamento.
Encerro este pequeno texto agradecendo o espaço e ressaltando que a profissionalização é fundamental em qualquer área. Estimulemos cada vez mais a assistência técnica de Zootecnistas, Veterinários e Biólogos. A multidisciplinaridade é importante demais nesses pequenos e complexos emplumados. Copiemos menos, entendamos mais, tragamos ideias novas ao coletivo e em breve seremos reconhecidos por realizarmos nossos próprios sonhos.
Autor: Dr. Renan Cabral Cevarolli, DVM