CASUÍSTICA DOS FERRETS ATENDIDOS NA CLÍNICA VETERINÁRIA TOCA DOS BICHOS – 2001 a 2009
FERRETS STUDY OF CASES IN VETERINARY CLINIC TOCA DOS BICHOS – 2001 a 2009
ROLL, Alessandra1 especialista*; MARSICANO, Gleide2 especialista.
1 – Médica Veterinária, especialista em clínica cirúrgica de pequenos animais pela UFSM/RS. Avenida Mal. José Inácio da Silva, 404. Bairro IAPI. Porto Alegre/RS. CEP 90520-280. Fone/Fax (51) 3341-7664. e-mail: alessandraroll@hotmail.com
2 – Médica Veterinária, especialista em Toxicologia pela PUC/RS. Idem endereço acima. E-mail: gleidemarsicano@ig.com.br
CASUÍSTICA DOS FERRETS ATENDIDOS NA CLÍNICA VETERINÁRIA TOCA DOS BICHOS – 2001 a 2009
FERRETS STUDY OF CASES IN VETERINARY CLINIC TOCA DOS BICHOS – 2001 a 2009
Resumo
Os ferrets tem sido escolhidos como pets a cada dia mais, fazendo com que o médico veterinário necessite se atualizar constantemente para atendê-los. Este trabalho tem como objetivo relatar a casuística no atendimento e ferrets na Clínica Veterinária Toca dos Bichos, Porto Alegre/RS, durante os anos de 2001 a 2009. Foram avaliados 189 animais que foram divididos entre animais saudáveis (19%) e animais doentes (81%). O segundo grupo foi dividido em: neoplasias (61%), afecções cardiopulmonares (10%), afecções tegumentares (7%), gastrenterites (8%), traumatismos (5%) afecções dentárias (3%) e outras (6%). Com base nestes dados podemos concluir que para o veterinário atender ferrets não basta saber o básico da vacinação, orientações e comportamento, mas precisa compreender, principalmente, as doenças endócrinas que os acometem, por serem responsáveis por grande parte dos casos clínicos encontrados.
Introdução
Ultimamente o número de ferrets adquiridos como pets tem aumentado visivelmente. Consideramos que isto é devido ao seu tamanho reduzido, pouca exigência de espaço físico, fácil transporte e amabilidade com os donos. Da mesma forma que estes mustelídeos se tornam mais freqüentes nos lares brasileiros, mais atendimentos veterinários são relatados. Este trabalho tem como objetivo relatar os diferentes diagnósticos realizados após consulta de ferrets atendidos na Clínica Veterinária Toca dos Bichos em Porto Alegre/RS, durante os anos de 2001 á 2009.
Revisão de Literatura
A popularização dos ferrets tem feito com que o veterinário de animais silvestres necessite de constantemente atualização e para isso observa-se uma necessidade crescente de literaturas e relatos de casos regionais, ou seja, não só literatura estrangeira. Com base nisso, faremos uma revisão de literatura baseada na maioria dos casos encontrados na Clínica Veterinária Toca dos Bichos.
Atualmente a doença mais popular em ferrets é a doença de adrenal. A causa da doença de adrenal em ferrets é ainda desconhecida. É provável que a esterilização precoce destes animais seja a causa do desenvolvimento de tumores ou hiperplasia de adrenais (1). Hiperadrenocorticismo em ferrets é diferente de Cushing em cães e gatos. Nestes, a concentração de cortisol sanguíneo é aumentada, enquanto em ferrets a concentração sanguínea de androstenactiona, 17-alfa- hidroxiprogesterona e estradiol estão aumentados. Assim, o termo hiperandrogenismo é provavelmente um termo mais adequado conforme a descrição da doença em ferrets (2). Os sinais clínicos mais proeminentes são alopecia simétrica, aumento vulvar em fêmeas castradas, retorno ao comportamento sexual do macho e prurido (2). Em estudo realizado, a maioria das adrenais apresentaram carcinomas adenocorticais – 60%, seguidas por adenomas corticais – 30% e hiperplasia adrenal – 10% (3). A segunda neoplasia mais diagnosticada foi o insulinoma, neoplasia de células beta pancreáticas, encontrada segundo (4) em ferrets após a meia idade. Estes tumores produzem uma quantidade excessiva de insulina, resultando em hipoglicemia. Os sinais clínicos associados são convulsões, letargia, sialorréia, ataxia e fraqueza nos membros posteriores (4). Em vários estudos, a excisão completa do tumor resulta em resolução temporária dos sinais clínicos (5)
Apesar das doenças respiratórias terem uma pequena porcentagem de casos, elas são usualmente dramáticas (6). Doença cardíaca é relativamente comum em ferrets, apesar de poucos artigos terem sido publicados sobre o assunto e, quando ocorrem, são relatos individuais. Na prática clínica, doenças cardíacas são vistas em animais senis, e a doença mais identificada é cardiomiopatia dilatada (7). Os sinais clínicos são semelhantes aos encontrados em cães e gatos, exceto tosse que não costuma ser um sinal associado à cardiopatia. Em radiografias, em incidência lateral, o coração parece globoso com contato esternal, a traquéia pode estar deslocada dorsalmente e efusão pleural pode ser evidenciada (8).
Cinomose é a enfermidade respiratória mais importante nos furões com quase 100% de mortalidade (8,9). Ferrets disseminam a doença por todas as secreções corporais e começam a fazer isto após 7 a 10 dias da infecção inicial (período de incubação) (9). A morte ocorre entre 12-16 dias (cepa adaptada aos furões) ou entre 21-25 dias (cepa canina). Sinais clínicos são secreção nasal e ocular mucopurulentas, espirros, febre, dermatite, tosse e hiperqueratose nos coxins plantares. Diferente dos cães com cinomose, vômitos e diarréia não costumam acontecer em furões. Em casos avançados pode ocorrer sinais neurológicos (8).
Doenças fúngicas envolvendo a pele são consideradas incomuns em ferrets. Considera-se que o fato possa ser devido à variação geográfica de incidência, que é dependente do clima local. Estes animais são susceptíveis a Microsporum canis e Tricophyton mentagrophytes, sendo o primeiro mais comum. M. canis pode ser transmitida por contato direto ou fômites e é reportada associada com superpopulação e contato com gatos. É mais comum em ferrets jovens onde pode ser uma infecção sazonal e autolimitante (10,11,12). A dermatofitose pode produzir crostas, eritemas, hiperqueratose, alopecia (geralmente em placas arredondadas) e prurido (8). Otite causada por Otodectes cynotis são comuns em ferrets. A transmissão ocorre por contato direto com animais infestados. Ferrets podem sacudir a cabeça e cocar as orelhas, mas geralmente são assintomáticos. Um exudato aural marrom escuro é comumente presente, podendo ser visto em animais sadios. Identificação do ácaro é confirmada por microscópio, passando a ser considerado patológico (12). O uso de ivermectina sistêmica é muito eficaz e o tratamento com selamectin spot on aplicado entre as escápulas também foi relatado como sendo eficaz e seguro em ferrets (11).
Devido ao convívio íntimo destes animais nos nossos lares eles passam a receber petiscos e outros alimentos impróprios. Salientamos que a humanização dos animais tem acarretado aparecimento de varias doenças, principalmente aquelas ligadas ao trato digestório. Diarréias alimentares são freqüentes em animais que tem acesso liberado a casa toda. Giardíase é incomum nos ferrets de cativeiro alimentados com rações comerciais e água limpa mas, sabe-se que, ocorre naqueles que ingerem água ou comida contaminadas, especialmente sobras de carnes cruas. O animal raramente mostra quaisquer sinal clínico relacionado ao parasita (13).
O fato destes serem relatados, deve-se a proximidade destes animais com o convívio domestico e ao seu comportamento único. Assim, insultos traumáticos a cabeça, peito e membros são geralmente comuns (6). As fraturas mais comuns em ferretes envolvem membros. Fraturas de rádio e ulna são mais freqüentes do que umerais. Os métodos de fixação não são tecnicamente diferentes daquelas feitas em cães e gatos. Reparo definitivo de fratura pode ser atingida através da coaptação externa, pinos intramedulares, cerclagens,placas e fixação externa (14).
Hábitos de morder ou roer costumam resultar em descoloração, desgaste e fratura das pontas dos caninos. Fratura nestes dentes geralmente não resultam em dor ou desconforto, a menos que a pulpa dentária seja exposta. Nestes casos tratamento de canal ou extração dentária se fazem necessários. Tártaro dentário, gengivite e doença periodontal são comuns em animais de meia idade. Dietas úmidas ou semi úmidas podem predispor a formação de cálculos dentários e doença periodontal (15).
Piometra ocasionalmente é observada em fêmeas intactas e na maioria dos casos, a fêmea apresenta descarga vulvar, podendo apresentar anorexia, letargia ou depressão. Poliúria e polidipsia não foram relatados (16). Piometra é vista ocasionalmente em ferrets castrados e ocorre mais comumente em associação aos hormônios sexuais aumentados como resultado de doença de adrenal secundária (17). Cistite sem urolitíase é incomum em ferrets (18), mas pode ocorrer como infecção ascendente de bactérias, similar a doença no cão (17). Sinais clínicos são polaciúria, disúria, dor ao urinar, urina que mancha o períneo e hematúria. A parede da bexiga pode estar engrossada a palpação (18).
Materiais e Métodos
Durante o período de 2001 a 2009 foram avaliados 189 ferrets na Clínica Veterinária Toca dos Bichos. Foram selecionados para o estudo todos os ferrets atendidos neste período, machos e fêmeas, castrados, com idade de 3 meses a 10 anos. Dos mustelídeos avaliados 19% (36 indivíduos) foram considerados sadios e outros 81% (153 indivíduos) desenvolveram algum tipo de patologia durante o período do estudo. Os diagnósticos destes animais após exames clínicos e/ou laboratoriais foram: neoplasias (61%), afecções cardiopulmonares (10%), afecções tegumentares (7%), gastrenterites (8%), traumatismos (5%) afecções dentárias (3%) e outras (6%).
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Resultados e Discussão
Somente 19% dos animais avaliados foram considerados completamente sadios, vindo à clínica somente para vacinação anual. Este fato deve-se, supostamente, pelo fato de que clínicas não especializadas possuem vacinas para todas as espécies, mesmo que seus veterinários não atendam clinicamente estes animais.
Dos animais com patologias, o diagnóstico mais observado foi neoplasia, presente em 94 indivíduos (61%). Dentre as mais comuns destacam-se as neoplasias de adrenal (40%) e de pâncreas (35%), seguidas de neoplasias de fígado (10%). As menos relatadas foram neoplasias de baço, linfomas, uterinas e tegumentares. O fato destes animais já chegarem ao Brasil castrados é a causa mais comum do aparecimento da doença de adrenal e conseqüentemente é a neoplasia mais comum encontrada nos ferrets,
Em relação às afecções cardiopulmonares, 10% dos casos (16 indivíduos), a cardiopatia dilatada foi constatada em 50% e o mesmo número de casos de cinomose respiratória (50%). Doenças cardíacas são características de animais mais velhos, assim, aqueles ferrets que alcançam esta idade se tornam susceptíveis a tais afecções, enquanto a grande maioria morre antes devido as doenças citadas anteriormente. Quanto a cinomose considera-se o número de casos muito baixo devido a boa informação que os donos de ferrets tem, ou seja, a grande maioria sabe que é uma doença potencialmente fatal e assim, tornam a vacinação dos mesmos algo extremamente rigoroso.
Afecções tegumentares consistiram em 7% dos casos (10 indivíduos), distribuídos meio a meio entre dermatite fúngica (50%) e otites (50%). Acredita-se que o baixo número destas afecções seja devido o clima local e aos cuidados que os proprietários despendem a este tipo de animal.
As gastrenterites, 13 indivíduos (8%), foram basicamente diarréias causadas por alimentação inadequada (62%), pancreatite (15%), giardíase (15%) e um caso de corpo estranho (8%). A manutenção de ferrets soltos no ambiente domiciliar gera uma grande chance para os mesmos de comer alimentos deixados ao acaso ou até mesmo revirar lixo, assim a grande quantidade de diarréias se deve a este tipo de costume local.
Os traumatismos, 7 indivíduos (5%), podem ser divididos em contusões musculares (57%) e fraturas (43%). Por serem animais extremamente flexíveis, com coluna vertebral alongada as fraturas não são tão comuns, enquanto as contusões musculares sejam em maior número devido o hábito dos ferrets de se entocar e entrar em locais extremamente pequenos.
As afecções dentárias, 4 indivíduos (3%) consistiam em fratura dentária (75%) e profilaxia dentária (25%). O hábito de roer é a principal causa das fraturas dentárias, a grande maioria dos ferrets possuem dentes caninos quebrados, porém os proprietários não acham este sintoma relevante a ponto de levá-los a consulta medica.
Das doenças que não se enquadraram nas demais classificações (6% – 9 indivíduos) podemos ressaltar piometra, infecção urinária, litíase biliar e atrofia muscular idiopática, entre outras.
Conclusão
Baseado nestes dados podemos afirmar que, a cada dia mais, o veterinário deve se manter constantemente atualizado sobre as patologias mais comuns nestes animais. Uma qualificação adequada é necessária ao atendimento profissional de qualidade, uma vez que a maioria dos casos, fora a vacinação, refere-se a doenças não muito freqüentes em cães e gatos.
Abstract
Ferrets are daily becoming pets on a lot of Brazilian houses, due to this the clinician needs to constantly renew is knowledge to better practice veterinary medicine. This paper has the objective to report the most common diagnosis found in the ferrets that went to Veterinary Clinic Toca dos Bichos, Porto Alegre/RS, during the years of 2001 and 2009. There were studied 189 animals and distributed into: healthy animals (19%) and sick animals (81%). The second group was again divided in: neoplasias (61%), cardiopulmonary diseases (10%), dermatologic diseases (10%), gastroenteritis (8%), trauma (5%), odontologic problems (3%) and others (9%). Based on this data we concluded that the veterinary needs to know more than vaccination programs, housing and behavior to become a good doctor, but also needs to fully understand the endocrine diseases that are the majority of cases seen in this animals.
Key words
Ferrets, neoplasias, diagnostic.
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