Gatos possuem várias particularidades as quais o clínico veterinário deve estar atento, desde comportamentais até metabolização de drogas. Dentre as drogas estão os pesticidas muitas vezes utilizados para combater pulgas e carrapatos em cães, e as piretrinas e piretróides são ótimos exemplos.

As piretrinas (naturais, extraídos das flores secas de Chrysanthemum) e piretróides (sintéticos) são utilizados como pesticidas, herbicidas, carrapaticidas, pulicidas e acaricidas, podendo apresentar comercialmente várias associações com outros produtos, aumentando a sua toxicidade. Seu mecanismo de ação se dá pela atuação nos canais de sódio, reduzindo a sua condutância, adicionalmente suprimem o efluxo de potássio, o que resulta em descargas elétricas repetitivas. Algumas piretrinas também antagonizam o GABA (principal neurotransmissor inibitório do sistema nervoso central), e portanto seus efeitos são similares à estricnina. Seus efeitos são, portanto, sobre o sistema nervoso e muscular principalmente.

A absorção dos produtos pode se dar por via oral, inalatória ou cutânea, sendo a cutânea e inalatória as mais comuns pelas formas de aplicação dos mesmos, como sprays. Os gatos possuem sensibilidade aumentada em relação aos cães, já que a sua conjugação glicuronídea é reduzida.

Gatos intoxicados por piretrinas e piretróides apresentam sialorreia, depressão, podem apresentar vômitos, diarreia, ataxia, dispneia, hipo ou hipertermia, tremores musculares (movimentos rápidos das orelhas, focinho, pálpebras, patas, musculatura cutânea superficial do tronco e abdomen, cauda ereta), convulsões, dispneia, paralisia e morte por insuficiência respiratória.

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O diagnóstico é realizado pela confirmação da exposição ao produto, porém nem sempre isso é possível. O teste de atropina, com aplicação de 0,04mg/kg IV pode confirmar a intoxicação por anticolinesterásicos de acordo com a resposta clínica.

Não há antídotos para intoxicação por piretrinas e piretróides. A atropina no caso pode ser usada somente para reduzir a sialorreia (sinais parassimpáticos). O tratamento consiste no controle das convulsões com diazepam ou fenobarbital IV, controle da temperatura corpórea, oxigenoterapia e ventilação se necessário, remoção do veneno da superfície corporal. Indução de êmese raramente é indicada porque a absorção da toxina é extremamente rápida, se a fórmula contiver destilados de petróleo também fica contra-indicada. Lavagem gástrica e administração de carvão ativado com catárticos (sorbitol 70%) via sonda gástrica podem ser indicados. Fluidoterapia intravenosa é necessária para manter perfusão e pressão arterial adequadas. Metocarbamol é um relaxante muscular de ação central indicado para controle dos tremores provocados pelas piretrinas e piretróides.

O prognóstico geralmente é bom desde que o tratamento seja instituido precocemente e de forma agressiva. Caso o composto tóxico envolva DEET ou outros compostos prognóstico pode piorar.

AUTOR: Anderson Nogueira Palma, Médico Veterinário

REFERÊNCIAS 

Norsworthy, G.D. 2011. The Feline Patient, 4th ed., p.39. Iowa: Blackwell Publishing.
Santos, M.M., Fragata, F.S. 2008. Emergência e Terapia Intensiva Veterinária em Pequenos Animais – Basese Para o Atendimento Hospitalar, 1ª ed., pp 505-506. São Paulo: Editora Rocca.

Silverstein, D.C., Hopper, K. 2009. Small Animal Critical Care Medicine, 1st ed., pp. 394-398. St.Louis: Saunders Elsevier.