O termo doença do trato urinário inferior dos felinos (DTUIF), antigamente chamado de Síndrome urológica felina (SUF) é empregado para descrever uma série de manifestações clínicas relacionadas com a inflamação da bexiga urinária e/ou uretra, independentemente da causa. Atualmente esses termos juntamente com outra nomenclatura mais recente – cistite intersticial felina – tem sido usada nos casos de doença do trato urinário em que se desconhece a causa da inflamação das vias urinárias inferiores.
Diversos distúrbios foram indicados como causas de DTUIF, como cistite idiopática felina (CIF), urolitíase, tampões uretrais, anomalia anatômica, neoplasia, infecção e problemas comportamentais. Estudos publicados revelam concordância geral sobre a prevalência relativa dessas causas. A causa mais comum é CIF (55 a 65% dos casos). A urolitíase acomete cerca de 15 a 20% dos gatos levados a exame com DTUIF. Problemas comportamentais e anomalias anatômicas podem contribuir para cerca de 10% dos casos. Neoplasia (1 a 2%) e infecções do trato urinário (ITU) (1 a 8%) são as etiologias menos comuns.
A DTUIF pode ser classificada em obstrutiva ou não obstrutiva, de acordo com a presença ou ausência de obstrução uretral, respectivamente. A uropatia obstrutiva correlaciona-se ao comprimento e ao diâmetro da uretra, sendo, portanto, mais comum nos machos, que têm uretra mais longa e estreita, e rara nas fêmeas. Já a não obstrutiva não apresenta predisposição sexual. Como possíveis causas da forma não obstrutiva, por ordem de ocorrência, temos a cistite idiopática não obstrutiva (65%), urólitos (15%), anormalidades anatômicas/neoplasia/outros (10%), alterações comportamentais (< 10%) e infecção bacteriana (< 2%). Como causas de DTUIF obstrutiva, têm-se cistite idiopática obstrutiva (29 a 53%), plugs uretrais (23 a 59%), urólitos (10 a 18%) e urólitos associados a infecções bacterianas (2%).
Epidemiologia e fatores predisponentes
A síndrome pode ocorrer em gatos de qualquer sexo e idade, porém o que se observa é que na maioria dos casos ocorre entre 2 e 6 anos, sendo incomum em animais com menos de 1 ano e com mais de 10 anos. Essa síndrome é mais observada em animais com sobrepeso, sedentários, sem acesso à rua, alimentados com ração seca e que, geralmente, vivem em colônias. Estudos recentes sugerem que o estresse também está envolvido na patogênese da CIF. Estressores adicionais em casas que mantém vários gatos podem incluir agressões mutuas ou a competição pelo acesso a água, comida, caixas sanitárias e espaço.
Sinais clínicos relacionados à obstrução
Animais com obstrução uretral freqüentemente apresentam estrangúria/disúria ou incapacidade de urinar, vocalização, lambedura excessiva da região perineal, pênis congesto estendendo-se do prepúcio e manifestações de uremia pós-renal, como letargia, anorexia, êmese, fraqueza, diarréia, desidratação, hipotermia, acidose e hiperventilação, bradicardia e distúrbios eletrolíticos (hiperpotassemia). Durante o exame físico é comum a presença de vesícula urinária extremamente repleta à palpação, freqüência respiratória aumentada, taqui ou bradicardia, hipo ou hipertermia.
Diagnóstico
O diagnóstico baseia-se em:
- Anamnese, incluindo tempo de evolução, epidemiologia e manifestações clínicas
- Exame físico
- Exames complementares (urina com análise do sedimento e cultura e antibiograma, radiografia simples e contrastada, ultrassonografia). No caso de obstrução é importante glicemia, hemogasometria e eletrólitos (cálcio iônico, potássio, sódio, cloreto e fósforo) e se possível pressão arterial sistêmica e eletrocardiograma para avaliação dos efeitos cardiovasculares das alterações metabólicas.
As anormalidades nos exames laboratoriais são rotineiramente descritas, como: proteína sérica aumentada, hipercalcemia, hiperfosfatemia, hipermagnesemia, hipercolesteremia, acidose metabólica, creatinina, uréia e outros catabólicos de proteína em níveis séricos aumentados.
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Tratamento
Pacientes obstruídos
Toda obstrução uretral deve ser entendida pelo clínico como sendo uma emergência, pois, se não for tratada rapidamente, o processo pode causar alterações hidroeletrolíticas e acidobásicas graves que podem culminar com a morte do animal. Dessa forma, a terapia consiste na correção da azotemia e das alterações hidroeletrolíticas e acidobásicas e no restabelecimento do fluxo urinário.
A fluidoterapia IV é indicada especialmente nos gatos com azotemia e hiperpotassemia; portanto, é importante a mensuração sérica de uréia, creatinina e potássio, quando possível
A correção da hiperpotassemia pode ser realizada de diferentes modos. Em primeiro lugar, recomenda-se a fluidoterapia intensa (60 mℓ/kg/h), porém se não ocorrer o efeito adequado, ou seja, se a hiperpotassemia permanecer muito intensa (> 8 mEq/ℓ), parte-se para um tratamento mais agressivo que consiste no uso de insulina regular IV juntamente com glicose a 50%. A insulina transporta a glicose para o meio intracelular levando concomitantemente consigo o potássio.
O paciente estando hemodinamicamente estável deve-se instituir a terapia específica para alívio da obstrução uretral. Em ordem de prioridade, os procedimentos recomendados para o restabelecimento da patência uretral em um macho obstruído são:
- Massagem da uretra distal
- Suave compressão da vesical
- Colocação de cateter urinário e retrolavagem uretral
A colocação dessa sonda é desconfortável e dolorida para o animal; portanto, requer sedação. No entanto, a escolha dos agentes anestésicos/sedativos dependerá do estado clínico e dos exames laboratoriais do animal. A cateterização uretral só poderá ser realizada em animais cujo quadro clínico permita a sedação. O cateter não deve ser forçado para o interior do lúmen uretral até a remoção do material obstrutor, devido à possibilidade de ruptura uretral. A porção proximal da sonda uretral deve ser arredondada, atraumática e lubrificada com lubrificante estéril. As sondas uretrais flexíveis ou cateteres uretrais de polipropileno são as preferidas para desobstrução uretral em gatos. Após a desobstrução, a bexiga urinária deve ser lavada repetidas vezes com solução salina a 0,9% estéril aquecida.
Segundo literatura após o restabelecimento do fluxo urinário, alguns gatos obstruem 24 a 48 horas após o alívio da obstrução primária, quando a sonda uretral não é fixada. Recomenda-se a permanência da sonda urinária em sistema de cateter fechado por 24 a 48 horas em gatos com elevado grau de dificuldade para desobstrução, presença de intensa hematúria ou quando apresentar fluxo urinário fraco durante a micção.
Insucesso na sondagem uretral
Em animais onde a sondagem não foi possível, o manejo terapêutico é de grande ajuda para a melhora do quadro clínico do paciente, de modo a permitir cateterização uretral futura. O animal deverá ficar sob internação hospitalar para a realização de cistocentece terapêutica 2 vezes por dia, no máximo por 3 dias, além de monitoramento de eletrólitos, eletrocardiograma e PAS.
Deve-se associar o uso de analgésicos (butorfanol ou tramadol, dipirona), antibióticos e antiespasmódicos de musculatura lisa (Prazosina).
Após 3 dias de manejo intensivo o procedimento de sondagem deverá ser tentado novamente. Caso haja insucesso novamente esse paciente deverá ser encaminhado para a uretrostomia perineal.
Prognóstico
Naqueles animais que apresentaram DTUIF na sua forma obstrutiva, o prognóstico varia de reservado à mau pois as conseqüências da uremia e hiperpotassemia persistentes podem ter efeito deletério sobre o animal, constituindo nas principais causas de morte, principalmente naqueles animais que apresentaram letargia, choque ou arritmias cardíacas na presença da obstrução. Recidivas obstrutivas são relatadas em machos em uma taxa de 45% nos primeiros 6 meses.
AUTOR: Dr. Ediquel Sena de Carvalho Junior, Médico Veterinário
REFERÊNCIAS
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