A motilidade gastrointestinal ótima é importante para a digestão do alimento, absorção de água e eletrólitos e na manutenção da microbiota intestinal saudável. Muitos fatores influenciam a motilidade intestinal em coelhos. A redução da motilidade gastrointestinal leva a impactação de alimento no estômago e ceco, absorção reduzida de glicose e redução no suprimento de nutrientes e fluidos para a microbiota cecal.
Por muitos anos a presença de pelos e matéria alimentar no estômago (tricobezoar ou bolas de pelos) foi creditada como uma causa de doença em coelhos. Pensava-se que o tricobezoar causava obstrução do piloro. Anorexia, perda de peso, eliminação fecal reduzida, depressão e morte devido à fome eram associadas a presença de tricobezoar. Muitas teorias foram formuladas para explicar as causas de formação do tricobezoar. Havia recomendações para realizar a escovação regular afim de evitar que quantidades excessivas de pelos fossem engolidas e assim impactassem no estômago. Alguns criadores recomendavam que ao menos uma vez por semana não se alimentasse o coelho para limpar o trato gastrointestinal de pelos. Tédio, deficiência de cobre e magnésio, proteína inadequada, confinamento em gaiola individual, e até a presença de barreiras filtrando o ar foram implicadas como causas de formação de tricobezoar.
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A incapacidade do coelho em vomitar também fora implicada como causa. Todos os tratamentos se demonstravam geralmente ineficazes. A administração de parafina líquida para lubrificar o conteúdo gástrico ou suco de abacaxi para dissolver os pelos enzimaticamente com a bromelina foram sugeridas como terapia. A remoção cirúrgica do tricobezoar era o último recurso e seu prognóstico era pobre. Muitos autores notaram a associação entre o tricobezoar e a lipidose hepática. A associação com a toxemia gestacional também foi descrita. Apenas nos últimos anos o tricobezoar foi reconhecido como sendo uma consequência e não causa de anorexia. Em exames post mortem o estômago de coelhos nunca se encontra vazio, e a presença de pequenas amostras de alimento fibroso é normal. A presença de pelos enredados no alimento também é um achado normal porque o coelho tem o hábito de continuamente se lambem, engolindo grande amostra de pelos.
Em 1987 Buckwell descreveu sucesso no tratamento clínico de estase intestinal em coelhos exibindo anorexia, redução na ingestão de água, depressão, perda de peso e ausência de peletes fecais. Ele descreveu a presença de uma massa palpável na região gástrica. O tratamento consistia na administração de estimulantes de motilidade, corticosteroides, fluidos orais e provisão de feno. Desde então o tricobezoar tem crescentemente sido reconhecido como o resultado, ao invés da causa de redução de motilidade gastrointestinal e é secundário a muitas outras condições. Dor, estresse, susto, todos podem reduzir a motilidade gastrointestinal e levar ao acúmulo de pelos no estômago e a formação de tricobezoar. Em um estudo de Jackson (1991), a estase intestinal ocorreu mais frequentemente em um grupo de coelhos de laboratório que foram contidos sem o uso de toalhas. No grupo onde a contenção foi feita com toalha a incidência de tricobezoares caiu dramaticamente, e o autor concluiu que o estresse possui um papel importante na causa da doença. A estimulação do sistema nervoso simpático leva à liberação de hormônios pela adrenal na circulação. Um dos efeitos da adrenalina e noradrenalina é a inibição da motilidade gastrointestinal. Se a motilidade gastrointestinal é reduzida, a secreção de água para o interior do estômago reduz e os pelos e a ingesta acumulam no estômago e tornam-se impactados. O coelho é particularmente sensível aos efeitos das catecolaminas na motilidade intestinal. Em coelhos saudáveis com uma rotina rígida diária, a passagem de fezes duras e macias segue um ritmo circadiano com uma varição média de aproximadamente 30 minutos. Estresse ou mesmo uma alteração na rotina podem ter um efeito significativo no ritmo cecotrófico. A simples iluminação em um período de escuridão levou um coelho a parar de produzir fezes por 10 dias, em um estudo sobre o ritmo cecotrófico por Jylge (1980). Trovões, fogueiras, ataques de predadores, dor e cirurgias podem reduzir a motilidade intestinal, caso não tratada resulta em impactação do conteúdo gástrico e formação do tricobezoar. A motilidade gástrica é afetada pelo conteúdo de fibra indigerível na dieta. O fornecimento de uma dieta com alto nível de fibra tem sido reconhecida como um método preventivo para a formação de tricobezoares.
Coelhos alimentados com baixa quantidade de fibras têm um risco maior de desenvolvimento de estase gástrica e formação de tricobezoar. O oferecimento de fibra indigerível altamente palatável para coelhos que estão em risco de desenvolvimento de estase intestinal, isto é, em pós cirúrgico, é importante. Gramínea fresca é a forma mais aceitável de fibra para coelhos, porém feno de boa qualidade é aceitável. A motilidade intestinal reduzida não resulta somente no desenvolvimento de tricobezoar. O gás acumula-se no estomago estagnado e ceco. A distensão das vísceras causa dor, que estimula a liberação de catecolaminas e exacerba a inibição da motilidade intestinal. Ulceração gástrica pode ocorrer. Alterações na secreção e absorção de água e eletrólitos levam à desidratação e desequilíbrio de eletrólitos. A redução na ingestão de alimentos leva a um déficit energético, que por sua vez estimula a mobilização de ácidos graxos de tecidos adiposos e infiltração gordurosa no fígado. O resultado é cetoacidose e degeneração gordurosa hepática.
A falência hepática secundária à lipidose hepática é um ponto final comum da estase gastrointestinal não tratada. Ainda a redução na ingestão de alimentos e hipomotilidade do cólon proximal reduz a quantidade de ingesta disponível como substrato para a microbiota cecal. Alterações nos padrões de fermentação cecal podem levar a mudanças de pH do ceco e produção de ácidos graxos voláteis. O equilíbrio da microbiota cecal muda e pode levar a proliferação de bactérias patogênicas como Clostridium spp.
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
Harcourt-Brown, Frances. Textbook of rabbit medicine, 2002 p.257-261
Tradução: Dr. Anderson Nogueira Palma, DVM